
Um dos filmes obscuros mais lembrados de todos os tempos. Chega a ser lamentável chamarmos um filme tão bom como este de obscuro, pois esta produção dirigida pelo rebelde Samuel Fuller merece ser bem mais reconhecida. A maneira como ele cuida de um filme com uma temática tão controversa é segura e exemplar. E o mesmo pode ser dito do argumento escrito por ele e Curtis Hanson (mais tarde um realizador de sucesso em Hollywood), baseado numa história verídica que aconteceu com o escritor Romain Gary, então casado com a actriz Jean Seberg que tinha um cão com os mesmos problemas. O animal teve de ser abatido.
Pena que a produção e o director, antes mesmo do filme ser lançado, tenham sido acusados de racismo por várias pessoas. Grande injustiça, pois quem diz isso não tem nenhuma razão. "White Dog" é um filme forte, corajoso e directo sobre o ódio, como ele chega a ser construído não só na cabeça, mas no coração dos seres humanos. E o ódio é algo que muitas vezes está assimilado ao preconceito, seja ele racial, sexual ou social. Algo muito curioso na narrativa de Fuller é que nenhum dos três principais personagens humanos interpretados por Kristy McNichol, Burl Ives e Paul Winfield chegam a ser "protagonistas"... a atenção do espectador volta-se inteiramente para o pastor alemão branco desde o início. A banda-sonora de Ennio Morricone pontua com perfeição muitos dos excelentes momentos do filme, mesmo sendo pequena e de poucos temas.
"White Dog" merece a atenção do espectador não só para o que ele tem a dizer, mas pela sua importância para o cinema moderno. 26 anos depois, pode-se dizer sem qualquer receio que essa grande obra de Samuel Fuller continua actual.
O projecto passou por diversas mãos, as mais famosas foram as de Roman Polanski que o rejeitou pelo tema ser "delicado" de se falar.
Actores e realizadores têm rápidas participações no filme, como Dick Miller, Paul Bartel e o próprio Samuel Fuller.
A produção não foi lançada comercialmente nos cinemas dos Estados Unidos e acabou sendo exibida no canal pago HBO diversas vezes. Ela sobrevivia apenas entre os cinéfilos de cópias feitas a partir de VHS ou gravações da TV até a Criterion lançar a sua edição especial que ainda teve a proeza de resgatar uma entrevista de Fuller com o actor canino no set de filmagens.
Simplesmente imperdível. Samuel Fuller é dos meus realizadores preferidos, e em breve vamos ter aqui mais filmes dele.
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